Cheiro em raiz.

É verdade q um dia ouvi falar de uma crença disseminada em alguns tribos indígenas de que toda criatura vive as atribulações da vida, as inconstâncias, as incertezas, os amargos, os desprazeres, e mesmo tendo os lados mais belos, a harmonia só vem com algum tempero único.
Disseram-me, então, que esse sabor é na verdade cheiro, e por ser tão essencial não se pode mostrar às folhas; é cheiro que brota da raiz, e esconde-se lá debaixo da terra.
Nos passos da vida a gente sente em certos tempos, mas de tão escondido é difícil saber donde vem. Procura-se as origens no céu, nas árvores, flores. Poucos descobrem que a essência está na raiz, em uma raiz única pra cada criatura, que exala o cheiro da paz mais harmônica e bonita.
Eu sou sempre descrente, e segui a ser, até descobrir que minha completude vem tão só ao sentir o cheiro de uma raiz, a raiz dos cabelos da menina dos amores meus.
Prefiro andar descalço,
cruzando deserto inteiro,
um atacama que seja,
sozinho em árduo passo,
a capitanear um barco
que so ancorado flutua,
por medo das águas livres,
do que podem vento e vela.

Sei que sonhas,
vestes o mapa feito saia,
danças passos sem ensaio,
ressoa o vento em canto,
como só criança sabe,
sentir gosto de infância.

...

vices

O cigarro convence fácil
por trazer calor ao peito,
via simples, feito vicinal,
simula uma chance
de cuspir os apertos,
ao céu feito fumaça.

velhos modos

implorou ao patrão piedade,
e viu logo estender-se a mão,
com chicote, que chiou
e feriu a esperança.

Pandorga

Ainda que que os grandes comprem
e tenham todos os barcos a vela,
o vento é livre...
Nele toda criança já pairou,
levada em baila por barbante e pipa.

Horizonte é próprio de almas simples.

Ser... tão...

espero-te, como se fosses chuva,
quando a vida perdura em sede.
Quando o céu já fechou-se,
e lenta achegou-se a noite...

...quero-te,
como a seca mais longa,
que se ameniza com o sereno,
não quer sol do outro dia.

Venha logo, com tempestade
de gostas colhidas pelos ares,
e irriga minha pele árida
erodia pelos verões de saudade.

Anacrono.

A maior saudade que sinto é das minhas palavras – pouco importa se escritas ou com voz. As letras lá fluentes até encantavam.

Agora sou saudade do tempo em que eu escrevia e mais ainda de quando concordava com cada coisa que dizia a minha ansia de falar. Aquietei-me e, amiúde ainda, reconheço-me na voz que falou mais do que devia.

Que falta faz meu grito rouco, solto ao núcleo do barulho. Ninguém dava ouvidos, mas eu me reconhecia.

Hoje estranho sou em voz, em verso e no espelho. Reconheço minha apatia.

Um dia, adiante, não tão longe, perceberei que fui deposto. Um golpe, um sopro, levaram meus miseráveis ao comando. Eu de fato, acuado na surpresa, encurralado, espero um sinal que diga, bem singelo, que ainda há terra prometida e minha.

Calou-se o grito e sei sequer se o que fiquei foi surdo ou mudo. Nada ouço, nada digo.

Saudade esta que sinto de minha carne fraca que deixava-se explodir ao vento. Hoje, eu muralha, estou ao mundo impedido.

E se este lamento se voltar de vez pra dentro, talvez não sobre entranha, a estrangular minha arrogância.
Contra as máquinas,
formo eu mesmo teu retrato,
que guardo atrás do bolso da camisa,
pintado pelo rosto, por gosto e tato...

Ventos

Teu tipo de beleza combina com alegria,
há outros mais melancólicos,
que sinto deveras belos,

Gênero teu: cortesia,
respeito mais o silêncio,
mas teu sorriso pró-espero,

De beleza, há tantos estilos,
e eu que não prefiro,
aprendo, admiro, aprecio.
E suspiro.

Futuros.

Depois de encontro inusitado,
casaram-se,
destino e acaso.

Até fizeram-se promessas.

Um ao seu modo pensou:
- com tudo traçado, que tenho de juras?
E o outro mediu:
- se rolam os dados, o que antever?

Seguiram.
Se juntos ou não,
já nem eles sabiam.

Cover

Foi no tempo, descobri que não é fábula
lugar aquele que reúne o bom, o belo.
E sei! Existem cheiros que vagam, sabores,
a cor dos amores, som de valsas por dançar.

Os frascos foram rompidos, no êxito dos perfumes,
dos guardanapos, desdisperdiçou-se o gosto...
E as cores das flores borboletearam-se,
em alado galope, feito elos corrente, foram todos.

Simples é o pensar de um lugar, e pensamento move.
O que era bom, e o belo, convergiu, melhorado! Eu?
Meus olhos, antes botões que agarravam a espreita,
desabotoaram-se.

Sorri ao ver que bailavam as bonitezas ao lugar inédito,
e ao sorrir, até meu riso flutuou e pra lá fluiu...
O palpitante coração retumbou, e o ímpeto soou no rumo
do rastro de paz. Meu resto feio e ruim não foi capaz.

Fiquei. Ainda sem entender o porquê. Fiquei por ser.

Como fosse over, de um dia a outro, revirou-se...
desejos disseram-me: pra lá foram teus amores,
e agora só lá existem, ouça, existe o que queres!
Mas teu mapa furou-se, e sentidos gastos não guiam.

Minha força, sim, gira um mundo, agora
de plástico, isopor e silicones,
onde o tempero dos dias tem sido, e bebo,
o sal que em gotas curtas chove.

Não posso ouvir,
enquanto houver,
sonante vida
desencantada.

Carrascas cascas

Acordou com uma ideia na cabeça,
reviveu tempos jovens, na cabeça.
O dia trouxe à tona a vida,
redesenhou-lhe em dúvidas novas.

Na cabeça, os planos se esvaiam,
da cabeça, caiam os cabelos.
O dia corria com peso na cabeça,
e os pés pisavam cabeças alheias.

Na cabeça,
a voz amável guardada,
a ausência,
ciranda-ciranda-cirandá.

E vontade de que pare a cabeça,
que roda, roda, rodará...
e os sonhos mudaram de rua,
escureceu-nos o que é de cá...

Lembrou que havia uma ideia, na cabeça,
a noite já caída, na cabeça, agora...
na cabeça o metrô inteiro, com peso e barulho, ainda,
já prelúdio do novo dia!

Atesto.

De Deus eu só quero a sorte de andar vívido até a morte. E que a magra me venha quando a vida não mais for forte.

Desatenção.

Com um só passo
puseste abaixo
todo meu céu.

Moça das sardas,
que andava nas nuvens,
muito mais que eu.

in natura

Esse rio anda meio sem eira nem beira, agora até sem garimpeiro. Ainda corre, aflui e, em fúria, recheia de água as ruas das cidades que galgaram o ouro sem saber o valor que cada pedra tem, em seu lugar de natureza!

Registro resquício de uma andança: a ida.

Pedro Magro só tinha,
50 quilos de cachaça e tabaco,
de porre, escreveu na fumaça:
doravante eu não tenho mais vícios.

Não quis perder a mulher,
e não quis passear de ambulância,
andar errante até o abrigo noturno,
nem mentir que de moto foi até o Canadá.

Parou de beber, parou de fumar,
parou da Várzea em Belém do Pará,
parou na volta, pra primeira carona,
pra mostrar que o mundo não é só gente enfadonha.

Rio

Meu riso é o jeito cínico de dizer
o que o silêncio traz de mais fino,
do que não guardo um único orgulho,
nem quero no destino plantado.

Sou então só eu que carrego
um riso sem felicidade
e o regozijo na lágrima?

O que vem de mais perto da alma,
se é que ela tem um lugar,
se há?

Rio.

JAÚ - IV

e aquele nosso amigo que foi pro seminário pra tentar salvar a alma que, coitada, passou a vida naquele corpo perdido, não merece passar a morte no purgatório.

no céu pretendido, parece ter algo que não se completa e o inferno, mesmo que tenha seus atrativos, é castigo em excesso pra qualquer tipo de crime.

não é que essas crenças vazias são o maior bem que muitos de nós cultivam! Então nosso aspirante a missionário vai é dispensar sua vida pra tentar despertar o alento no peito de um ou de outro

cada um dispensa a vida de um jeito, e pode até tirar bom proveito. Honestamente não sei quem assume a melhor postura

digo, assim, é que depois de alguns anos o cara percebe que em muitas horas é bom se esbaldar em ignorância (em certo assuntos, é claro).

assim se vai, salve umas almas e deixe a tua no desamparo, pois duvido que há neste mundo um pregador que não duvide do próprio futuro.

Tras.

Beijo-te o rosto,
em mente o lábio.
Assim, não culpa-se:
bochechas não são ciúme.
Beijo-te o rosto,
em mente o lábio.
E quase como fosse ingênuo,
eu ciumento,
não te quero enamorada.
Beijo-te o rosto,
num singelo cumprimento,
em mente o lábio.
Dizem línguas
que boca é do diabo...

Beijo-te e penso
em beijar-te o corpo íntimo
como te dispo
agora aqui no pensamento.
E beijo teu lençol de pele
com um toque demorado,
e penso...
que enquanto sonho
teu sussuro me disperte
e veja-me espontâneo,
a sonhar-te bela.

Manhã sincera,
Dê-me a mão:
a dúvida às nossas costas.

Gosto.

E quando o fim de um encontro começa a se encostar no comecinho do outro?